(O Brasil lê mal) Desabafo de um atual-futuro professor de português

Um amigo meu da Faculdade de Filosofia da UFRRJ postou no orkut um exercício que a professora de português dele passou. Não sei ainda o porquê dele ter postado, mas ao ler, confesso que não pude deixar de escrever sobre aquilo. Se alguém quiser saber a razão deste post, por favor, leia o texto abaixo, e logo depois a minha crítica a ele:

O Brasil lê mal

Claudio de Moura Castro

Afirmei nesta coluna que os cursos E (no Provão) podiam trazer grandes benefícios aos alunos. Alguns médicos enviaram e-mails protestando: como? Ser tratado por um médico formado em escola E? Ora, a coluna excluía taxativamente a medicina, ao dizer: “Na área médica ou em outras em que há questões de segurança envolvidas, que se exijam mínimos invioláveis”. Um punhadinho de doutos médicos não soube ler o texto. Se até na carreira mais elitizada de todas parece haver uma patologia no ato de ler, imagine-se no resto.Para diagnosticar tal enfermidade, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep/MEC) buscou uma clínica de luxo, o Pisa. Trata-se de um sistema de testes de rendimento escolar organizado sob a bandeira dos países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o clube dos ricos. A iniciativa trouxe resultados de incalculável valia.

Ao contrário dos testes convencionais, não se trata de professores decidindo o que os alunos devem saber. Os organizadores foram ao mundo real das sociedades modernas e perguntaram que conhecimentos lingüísticos seriam necessários para operar com êxito nas empresas e na vida. Portanto, os testes buscaram a competência em leitura que se usa no mundo real – é o que migra da escola para a prática.

Como o único outro país do Terceiro Mundo era o México, a dúvida era se seríamos os últimos ou os penúltimos. Melhor não podíamos esperar. Mas saber que carregamos a lanterninha é de interesse menor.

Foram prejudicados os países onde há muitos alunos com defasagem idade-série, como o Brasil, pois o teste toma alunos de 15 anos (na série em que estejam). Analisando apenas os estudantes sem atraso, nossos escores empatam com os da Rússia. Resultado horripilante para a Rússia, que já teve um dos melhores sistemas educativos do mundo.

Mas isso tudo é irrelevante. O que interessa saber é por que não aprendemos a ler corretamente. O Pisa mostra que os alunos brasileiros conseguem decifrar o texto e ter uma idéia geral sobre o que ele está dizendo. Daí para a frente, empacam.

Isso não seria uma grande surpresa, diante da realidade das nossas escolas públicas, ainda esmagadas por problemas angustiantes no seu funcionamento básico. Mas poderíamos esperar que nossas escolas de elite fizessem uma bela apresentação. Afinal, operam com os melhores professores, os melhores alunos e sem problemas econômicos prementes.

Contudo, o nível de leitura de nossas elites é, ao mesmo tempo, o resultado mais trágico e o que mais esperanças traz. Saímo-nos mal, muito mal. A proporção de brasileiros de elite capazes de compreensão perfeita dos textos escritos é muito pequena, comparada com a taxa de outros países (1%, em vez dos 6% da Coréia e dos 13% dos EUA).

Ou seja, nossa incapacidade de decifrar um texto escrito não se deve à pobreza, mas a um erro sistêmico. Estamos ensinando sistematicamente errado. Se é assim, passar a ensinar certo deve trazer incontáveis benefícios para a educação e para a sociedade. E não pode ser tão difícil assim.

Parece haver uma estratégia errada no ensino da leitura. Os alunos se contentam com uma compreensão superficial do texto. Satisfeitos, passam a divagar sobre o que pensam, sobre o que o autor poderia estar pensando, sobre o que evoca o texto. Mas isso tudo ocorre, antes de acabarem de processar cognitivamente o texto, de decifrá-lo segundo os códigos rígidos da sintaxe. Dispara a imaginação, trava-se a cognição. Lemos como poetas e não como cientistas. Mas antes da hora de ler poesia, após o jantar, há que ler contratos, cartas comerciais, bulas de remédio, instruções de serviço, manuais, análises da sociedade e dos políticos e por aí afora.

A revolução possível na competência em leitura de nossa gente nos permitiria galgar outro patamar de desenvolvimento. E isso pode ser feito a custo praticamente nulo. É só querer. Na Europa, o Pisa provoca um feroz debate. Nas terras tupiniquins, só a notícia do último lugar conseguiu chegar à imprensa. A tônica foi criticar o governo, em vez de entender ou tirar lições.

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)

Revista Veja – 06/04/2002

Perguntas:

  1. Qual é o assunto tratado no texto?
  2. O autor usa diversos termos da área da Medicina (doutos médicos, patologia, enfermidade etc). Qual significado, de um modo geral, essas palavras assumem no texto lido?
  3. Qual a diferença do PISA para outros testes (como os aplicados nas salas de aula)?
  4. O que o PISA identificou na leitura dos alunos?
  5. Fazer um pequeno resumo, comentando criticamente o tema abordado no texto.

Irônico, não é?! Eu, particularmente, ri. Mas foi gradual, juro! O texto não é ruim, atenta para um fato importante que é a da leitura superficial… eu chamo de leitura “skimada”… (To skim = to read or consider something quickly in order to understand the main points, without studying it in detail).
Achei muito interessante o fato do problema de leitura não estar atrelado às questões sócio-econômicas, mas os últimos 2 parágrafos foram criando em mim um certo riso frouxo, culminando numa gargalhada. Explico:
Qual o problema das divagações? Desde que bem orientadas, acredito serem extremamente válidas e necessárias. A escola sempre agiu como censora da criatividade, tolhendo a imaginação dos alunos, homogeneizando-os.
O que seria o “processar cognitivamente o texto”? Divagações não ocorrem de forma cognitiva? Fazemos suposições acerca do texto mas para que isso ocorra não há cognição?
E “os códigos rígidos da sintaxe”? (confesso que já aí comecei a rir) que rigidez é essa da sintaxe que me permite dizer que “vou NA casa” ao invés de “ir à casa”? Que rigidez é essa que faz com que cada vez mais as gramáticas se distanciem do uso real da língua? (se é que em algum dia elas já foram próximas!)
Se lêssemos como poetas, como afirma o autor, não teríamos os problemas que temos hoje. Imagine vários Drummonds, Manueis Bandeira, Cecílias Meirelles… será que eles, poetas, não sabiam ler?
É certo que os alunos precisam ser expostos a diferentes gêneros textuais, tanto na leitura, quanto na escrita. É certo que o professor deve incitar no aluno a leitura crítica, mas para isso devemos abolir a criatividade, as ideias diferentes, a visão do aluno? Acredito que não.
Mas ao terminar de ler, entendi o porquê do meu riso… ora, quem fala sobre como os professores de português deveriam atuar é um economista! E a indicação da Revista Veja só aumentou a minha felicidade irônica.
Pra fechar com chave de ouro, nada melhor do que um exercício que culmina por corroborar a ideia do autor, isto é, perguntas superficiais para leitores superficiais.

E você? O que acha?

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4 Responses to “(O Brasil lê mal) Desabafo de um atual-futuro professor de português”


  1. 1 ELIANE 25/06/2009 às 22:04

    AMEI O QUE VOCÊ ESCREVEU PRINCIPALMENTE PORQUE VOU TER QUE FAZER UMA RESENHA DO TEXTO

  2. 2 Steven Ibrahimovic 21/02/2011 às 16:54

    este artigo e mutio legal.
    carak……..

  3. 3 Steven Ibrahimovic 21/02/2011 às 16:56

    Será q vcs gostariam q a nova presidenta aprovaria isso?
    Pergunte qual seria a providência que tomaria a respeito disso.
    Para diminuir a taxa d analfabetismo no Brasil..

  4. 4 herielson 14/11/2012 às 12:49

    vc só nao indentificou ou questionou as ideias principais do texto ..pode indentificar e exclarecer melhor ?


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